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Música para os olhos

A comédia dramática ou drama cômico (modo mais preciso para descrever este filme), “O Concerto”, de 2009, do romeno Radu Mihaileanu, acabou de sair em DVD. Divertidíssimo e extremamente sensível! Temos a tentativa de conclusão de um concerto de Tchaicovsky, na França, interrompido trinta anos antes na Rússia, que deixou congelada a vida de diversas pessoas (inclusive a do maestro/protagonista) e inexplicado um evento central do enredo. Uma simpática homenagem à música, como força capaz de revelar a alma das pessoas e as verdades ocultas.

Pura poesia

Lee Chang-dong, romancista, cineasta e ex-ministro da cultura da Coréia do Sul, escreveu e dirigiu o magnífico “Poesia”. O roteiro foi feito especialmente para Yoon Hee-jeong, uma das maiores atrizes do cinema coreano, há mais de uma sécada afastada dos sets. O filme de 2010 acabou de chegar às locadoras e é simplesmente incrível. Na elaboradíssima estória, que acontece em um rítmo adequado e sem pressa (como os coreanos sabem fazer muito bem), nada é o que parece à primeira vista, como já prenuncia o título, que aparece junto à cena do corpo de uma menina boiando no rio Han, logo no comecinho. Não se trata porém de um filme de reviravoltas, mas sim de revelações sutis. A aparentemente ingênua avó interpretada de modo impressionante por Yoon, que complementa sua pequena pensão com um trabalho de faxineira, resolve a seu próprio modo um grande problema envolvendo o neto, enquanto luta para escrever um poema e enfrenta o início do Mal de Alzheimer. É o tipo de filme que amadurece na cabeça por muito tempo após a primeira assistida e que se torna cada vez mais interessante. Sem dúvida um dos melhores que vi nos últimos tempos.

Entendeu?

 

Já citei algumas vezes no bog,  o “Ano Passado em Mariembad”,  um dos grandes filmes de Alain Resnais. Há muito o que se falar sobre a película e interpretações abundam. Mas a sinopse da distribuidora Continental é insuperável! Quando li na capa do filme achei que era gozação e ao ver o site da empresa, que tem sabidamente filmes maravilhosos, achei a repetição de um dos textos mais esdrúxulos jamais cometidos a respeito de um filme. Ele está na íntegra, com os erros de escrita e tudo o mais: 

Sinopse: Ambientado hotel europeu, este filme tem três personagens principais: o narrador, que faz o voicerover do filme; a mulher, por quem o narrador é obcecado; e o outro homem, com quem a mulher veio para o hotel. O narrador fala repetidamente para a mulher, que passaram o ano anterior juntos e implora para que ela parta com ele. A mulher continua mantendo que não sabe o que ele esta dizendo, mas seu comportamento demonstra o contrario. Enquanto isso, a presença do outro homem no hotel, complica a vida da mulher e do narrador. Este filme, não delineia os personagens nem tem argumento como tradicionalmente conhecemos, mas é considerado um filme intelectualmente e emocionalmente engajado. Em primeiro plano, assistir a esta obra, nos faz contemplar e a perguntar: será que entendi algo? Num segundo plano, o filme nos da consciência: das nossas próprias confusões emocionais, nossos anseios conflitantes e das nossas recordações nebulosas. É um filme interativo, cada um que assistir terá seu próprio conceito.

Para inglês ver

Com todo o respeito ao povo brasileiro, do qual orgulhosamente faço parte, não é novidade que aqui (e em outros lugares também) há regras que pegam e outras não, para utilizar um lugar mais do que comum e também verdadeiro. Talvez não dê para ler direito, mas a placa na estação de metrô Ana Rosa, pede que os usuários aguardem o desembarque dos passageiros EM FILA, para depois embarcarem. E nem sequer há cercadinhos como em algumas estações. Uma placa assim é quase que nem faixa de pedestre sem sinal para os carros, praticamente inútil. OK, a piada não parece boa, mas aí vai a cereja, como em diversas outras placas, abaixo do texto em língua pátria, há o mesmo escrito em inglês. Só pode ser sacanagem com gringo! Imagino um distinto súdito britânico tentando obedecer à regra em pleno horário de rush de passageiros. Vai demorar um bom tempo para ele conseguir embarcar, é fato. Honesto seria algo como, DEAR USER, PLEASE TRY TO COPY THE OTHERS, OR ELSE YOU ARE F****D! A placa da foto é para inglês ver, ver e se dar mal.

Paris, Paris

O velho Allen voltou a acertar. Depois de um mais fraquinho, um filme muito divertido. Não é o melhor Allen, mas como já disse antes, o pior Allen já é melhor que o melhor Cameron, o que não dizer de um bom Allen? O diretor parece que alterna filmes com finais pessimistas e otimistas. Este é um dos otimistas. As estórias muitas vezes utilizam metáforas para falar da realidade e aqui Allen faz algo diferente (mas não completamente novo), transforma as metáforas da realidade em realidade, cinematográfica obviamente. O filme é daqueles que ocultam uma relativa profundidade por detrás de uma aparente simplicidade, algo invulgar hoje em dia. Também é possível estabelecer relações bem imediatas com vários livros e outros filmes , desde “Em Algum Lugar do Passado” até “O Ano Passado em Mariembad”. Pronto, já dei dicas suficientes sobre o enredo. Agora uma coisa verdadeiramente impressionante, na mão do pequeno gênio, até Owen Wilson fica ótimo. E não me entendam mal, acho algumas comédias descompromissadas com o ator, extremamente divertidas.

Frio

O Código Nacional de Trânsito é muito curioso, por um lado exige uma série de equipamentos na bike, uns úteis, alguns inúteis e outros até mesmo  prejudiciais. Por outro lado, não exige equipamentos básicos de segurança no ciclista, como o capacete ou as luvas. E quem pedala muito, já caiu um dia (ou não pedalou o suficiente) e mesmo não tendo batido a cabeça, já entendeu a necessidade de luvas, pois as mãos são a primeira defesa. E no frio, é até mais gostoso usar luvas, principalmente como estas, as minhas favoritas no momento, as de couro da marca australiana knog (feitas na China, é claro). Alguns modelos e tamanhos são encontráveis no Brasil. Mas é fácil achar os demais na internet.

Os monstros de Sendak

Na madrugada do sábado para o domingo casualmente topei, em um dos canais da HBO, com uma entrevista de pouco mais de meia hora que me deixou impressionado. Minha admiração pelos filmes de Spike Jonze é pública e em meio a sua vasta produção de filmes e clipes, gosto especialmente de “Onde Vivem os Monstros” (2010). O filme é uma adaptação do aclamado (e estranhíssimo) livro infantil de Maurice Sendak. Em 2009 Jonze entrevistou Sendak, com quem travou uma sólida amizade e revelou, através de um minidocumetário surpreendente, uma personalidade extremamente complexa. Nada como um gênio entrevistando outro! Sendak é um autor e ilustrador de livros infantis de um pessimismo desconcertante, em meio a seu amor pela arte e sua relação com seus cachorros e umas poucas pessoas, dentre elas seu falecido companheiro por cinquenta anos. Sua obesessão pela mortalidade desde criança, foi surpreendentemente um dos motores que impulsionou sua carreira de sucesso. Em um dos momentos mais bonitos, Sendak divagando sobre o porquê da morte é questionado por Jonze: E por que nascer?

Pasta e sangue

Zhang Yimou é realmente um dos grandes diretores de cinema em atividade. O brilhante responsável pelo excelente “Lanternas Vermelhas” e pelo belíssimo “Herói”, só para citar duas de suas obras mais conhecidas, mostrou que permanece em forma com a adaptação de “Gosto de Sangue” dos irmãos Coen, “Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão”. O drama/comédia de humor negro é de 2009, mas o lançamento em DVD é recente. Não encontrei em blu-ray, mas certamente merecia ser assitido na nova mídia, pois como em todo filme de Yimou, as imagens são caprichadíssimas e as cores saltam aos olhos.  O filme acompanha também 100 minutos de extras que valem ser assitidos, há um making off do filme que é quase um documentário sobre o diretor, e revela um sujeito que apesar de perfeccionista ao extremo, não perdeu a afabilidade.

Não é um filme qualquer

Em um final de semana de frio, atualizar-se nos últimos lançamentos das videolocadoras é sempre um bom programa, principalmente quando os filmes acabam sendo bons. Sophia Copolla, apesar de nunca ter superado ou igualado “Encontros e Desencontros”, é sempre garantia de qualidade em meio a um oceano de mediocridade cinematográfica. O roteiro de “Um Lugar Qualquer” (“Somewhere”), de 2010, é simples: ator bem sucedido que vive em meio ao ócio, drogas e sexo, interrompe sua rotina quando sua filha de onze anos passa um tempo com ele e após a partida da moça, compreende o vazio de sua existência. O filme é cheio de metáforas incomuns e  um final que abusa delas (sem ser pedante, o que é difícil), mas a graça não está aí. Como em “Encontros e Desencontros”, o interessante é o clima estabelecido pela câmera e pela velocidade da narrativa, entre outros. Clima que muitas vezes soma mais à história que os próprios diálogos.

Tempos modernos

Não vou me alongar. A foto é autoexplicativa.