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Grandes Decadências Paulistanas – Parte I

14/06/2010

Se ninguém falou, agora eu digo: Toda cidade grande de respeito tem que se desrespeitar um pouco, tem que ter locais absolutamente decadentes como museus, hotéis, restaurantes, etc., que já tiveram sua grandiosidade no passado, mas que hoje tentam ostentar um mínimo de dignidade em meio ao mofo predominante. Mas por que um local decai? São tantos os fatores que é mais difícil fazer previsões em relação a isso que em relação à bolsa de valores. A ciência da percepção da decadência é eminentemente uma de análise do passado e do presente. Até porque a decadência é reversível, seja pela destruição, que é a forma mais bárbara e simplista (casarões e palacetes), reforma e organização (Conjunto Nacional), modificação (Pinacoteca do Estado) ou substituição (Center 3). E há também, não podemos esquecer, locais decadentes no parto. Neste post, que pretendo atualizar com certa frequência, vou, até que se prove o contrário (ou que se reverta a situação dos citados), elencar alguns ícones do abandono.

1. Prédio da Bienal: Obra prima fungada da arquitetura, vítima da desorganização e do descaso das próprias exposições que abriga. Impossível não sentir o enorme vazio existencial e espacial enquanto se caminha por suas imensas rampas. Grande baleia branca encalhada na praia paulistana. Pobre Niemeyer. Pobre patrimônio público.

2. Shopping Ibirapuera: Já viveu sua glória e  não soube acompanhar os tempos. Repare nos corrimãos de plástico translúcido envelhecidos, nos pisos de outrora e demais elementos kitch. Puro mofo. Pura burguesia empobrecida.

3. Elevado Costa e Silva: realização máxima da engenharia escrota e descompromissada com os entornos. Quilómetros e mais quilómetros destinados ao símbolo freudiano máximo de afirmação do paulistano, o falo, digo o carro. O grande anelídeo jurássico supera qualquer expectativa e prova que algo já pode nascer decadente. Hors concours.

4. Cine Gemini: Em plena Avenida Paulista, ele é velho, ele é feio, não tem acessibilidade e tem poltronas incômodas. Ele é o máximo. Eu realmente adoro este aí, de verdade, porque está sempre vazio, passa filmes excelentes, tem tela gigante, preços razoáveis e seus poucos frequentadores costumam ser educados. São duas salas, uma em verde vômito e outra em vermelho sujo. Se melhorar, estraga.

5. Galeria Prestes Maia: Não vou gastar meu precário português. O próprio portal da prefeitura a descreve assim: Poucas pessoas, que hoje atravessam a Praça do Patriarca rumo ao Vale do Anhangabaú pela Galeria Prestes Maia, sabem que ela abrigou grandes eventos artístico-culturais e já foi um dos endereços mais concorridos da cidade. O que resta dizer? Talvez que o revestimento em mármore confere um charme ainda mais especial a esta monumental decadência…

6. MASP: O Museu da Má Administração de São Paulo é comandado há tempos por um grupo de transparência similar à da CBF, que entre outros feitos conseguiu desvirtuar o projeto original de Lina Bo Bardi, pintando as colunas de sustentação de vermelho e retirando os suportes transparentes  das obras, entre outras manifestações de arrogância, ignorância ou ambas. Exemplo também financeiro de decadência, foi pego há alguns anos obtendo energia elétrica através de um conhecido aparato da fauna felina urbana. Pura pilantragem.

7. Treme-tremes: Para alguns, símbolos da decadência moral, para outros, símbolos puros de uma decadência ingênua. Me incluo nos defensores da ingenuidade, pois sei que os primeiros estão melhor representados por algumas repartições públicas e sedes corporativas. Em edifícios que deveriam estar interditados, meretríssimas profissionais da milenar arte da prostiputação, decaídas, servem clientes ainda mais.  Dizem que nos treme-tremes proliferam DSTs ainda desconhecidas da medicina e que lá a hepatite acaba na letra F. Decadência de proporções bíblicas no melhor estilo das defuntas urbes de Sodomia e Gonorréia. Pura sacanagem.

8. Prédio da FAU/USP: O da Cidade Universitária é claro. Este legítimo representante irônico do descaso com um elemento arquitetônico, o prédio da Faculdade do Abandono Urbano, parece relegado aos alunos, professores e moscas.  É muito concreto para tão pouco cuidado.

9. Edifício Grandes Galerias: Podre, cult e inigualável. Tudo nele é grandioso: a sujeira, as escadas rolantes que enguiçam, as interdições. A conhecida Galeria do Sexo, Drogas e Rock’n Roll é o paraíso de quem gosta de música alta, piercing e silk-screen. Grandes galerias. Grandes decadências.

10. Daslu: Prédio contemporâneo exemplificativo da decadência do bom gosto arquitetônico dos bens de vida da cidade. O Stand Center dos ricos foi estratégicamente construído diante de um trânsito infernal e de um rio fétido que os frequentadores ajudaram a concretizar com décadas do mais sincero e desinteressado suor. Gente coisa é outra fina!

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One Comment
  1. Lúcia permalink

    Muito bom, muito bom mesmo!
    Adoro frequentar alguns destes maravilhosos lugares decadentes. Espero que eles continuem firmes e fortes, pois sabemos qual é o final provável… virar qualquer uma destas igrejas evangélicas.

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